Drama histórico
O passado como cenário da ficção
Semana Santa sempre me lembra de Quo Vadis? (1951). Era o filme que passava toda Sexta-feira da Paixão na Globo. Quando criança, as imagem de Quo Vadis? ficaram marcadas na minha mente. Os católicos sendo mortos no Coliseu enquanto os romanos riam e aplaudiam. Pedro crucificado de cabeça para baixo. E, claro, Nero. Que matou a mãe. E colocou fogo em Roma.
Aquilo era verdade? Aquilo havia realmente acontecido? Sim e não, era a resposta que eu recebia. Houve um imperador chamado Nero. Mas pode ser que ele não fosse exatamente daquele jeito. E os seguidores de Cristo foram perseguidos e mortos, mas aquela Lygia não existiu, foi um personagem criado. Como assim? Pode isso? Misturar histórias reais com histórias inventadas?
Há quem diga que todas as histórias são inventadas, mas para não complicar, vou considerar aqui que existe o real e o ficcional, o que aconteceu e o que foi inventado. Após anos revendo Quo Vadis?, descobri que o filme era adaptação de um livro de mesmo nome, escrito por Henryk Sienkiewicz e publicado em 1895. Foi a primeira vez que ouvir falar em romance histórico. O estilo teria sido inventado por Walter Scott, autor de Ivanhoé, que criou personagens e compôs cenários e trama a partir de pesquisas históricas, trabalhando a narrativa de forma a fazer o leitor se sentir naquele tempo e lugar.
Na escola minha matéria preferida sempre foi História. Com H maiúsculo. E eu sempre amei escrever histórias, com h minúsculo. A possibilidade de junção desses dois Hs foi uma enorme descoberta. Então uma pessoa podia pegar um fato histórico e inventar uma história que se passava ali, às vezes até usando personagens reais?
Logo o romance histórico se tornou meu tipo de literatura preferido na adolescência. Li Memórias de Adriano, Os Três Mosqueteiros, O Chalaça. E até revisitei os acontecimentos da Semana Santa na inusitada mistura de romance histórico com ficção científica de Operação Cavalo de Tróia.
O romance histórico é interessante porque ele faz da História com H maiúsculo um elemento da história com h minúsculo. Uma serve à outra. A trama pode surgir tanto do período histórico em si ou de algum personagem histórico. Como era a vida em Pompeia antes da erupção do Vesúvio? Pronto, você já tem o clímax (com direito a contagem regressiva) e pode construir a história usando a inevitável tragédia a seu favor.
Às vezes você tem a ideia de uma situação banal: a mãe esperando o filho voltar do trabalho para jantar. Mas e se isso acontecer no tempo das cavernas? E se o trabalho do filho é caçar um mamute? De repente, o banal se torna espetacular.
O que Pero Vaz Caminha estaria fazendo 24 horas antes de chegar ao Brasil? O mais interessante, claro, é tudo isso envolver uma minuciosa pesquisa: o Caminha da ficção tem que ser crível. As pessoas que leem têm que acreditar que ele é real – pelo menos naquele momento.
A ficção trabalha nessa linha tênue entre o acreditar e o não acreditar. A gente se emociona de verdade com situações ficcionais, mesmo sabendo de forma consciente que nada daquilo é real. A ficção histórica estica um pouco mais a linha, tende a fazer acreditar um pouco mais. Cremos nos hábitos, nos cenários, em todo um estilo de vida. Uma de suas graças, afinal, é se sentir transportado para aquela época. E isso depende do leitor - ou espectador – acreditar que as coisas eram realmente daquele jeito. É comum, então, que os romances históricos sejam cheios de descrições. Os autores mais talentosos conseguem fazer isso de forma orgânica, sem parecer aula de História com H maiúsculo. Tudo deve funcionar em prol da outra história. Aquela com o h minúsculo. Quando tudo funciona, é muito divertido. E instrutivo.
Sobre dramas históricos...
Ramsés: a saga literária em cinco volumes de Christian Jacq te transporta para o Egito Antigo e reapresenta fatos e personagens muito conhecidos. É um mergulho na culinária, moda e política da época.
Agosto: a minissérie da Globo adapta bem a trama e faz uma boa reconstituição de época, mas é o livro de Rubem Fonseca que consegue te colocar no Rio de Janeiro às vésperas da morte de Getúlio Vargas.
The Last Kingdom: Bernard Cornwell publicou 13(!) livros sobre a formação da Inglaterra entre os séculos IX e X. A série na Netflix adaptou bem as Crônicas Saxônicas em cinco temporadas mais um longa-metragem. A narrativa se apoia totalmente em personagens que realmente existiram e acontecimentos históricos importantes para criar uma história ficcional que lembra muito a estrutura das lendas
Roma: aqui vai uma dica dupla. O livro Roma, de Steven Saylor, reimagina os principais acontecimentos desde a fundação de Roma até o Império. Personagens inventados se misturam a pessoas reais para tentar dar conta de explicar como um vilarejo se tornou uma poderosa nação. Já a série Roma, da HBO, pode ser a continuação perfeita do livro, fazendo uma ótima ambientação de época para mostrar a ascensão de Júlio César ao poder.
Xógum: o romance de James Clavell possui o olhar estereotipado de um livro sobre o Japão de 1600 escrito por um inglês nos anos 70. Sua adaptação mais recente, a série Xógum – A Gloriosa Saga do Japão, acerta ao colocar John Blackthorne como coadjuvante, focando nas intrigas políticas e na cultura japonesa da época.
Angola Janga: a história em quadrinhos de Marcelo D’Salete nos coloca dentro de uma verdadeira nação criada por escravos fugitivos no Pernambuco do século XVI. Um lugar que tinha a população de uma grande cidade e resistiu a invasores holandeses e portugueses. Este épico narra acontecimentos emocionantes e traz personagens históricos como Ganga Zumba, Domingos Jorge Velho e o mais famoso dos líderes de Angola Janga, Zumbi dos Palmares.


